Gylmar Chaves, poeta, escritor e pesquisador cearense é autor de 18 livros e nos últimos quinze anos dedicou a pesquisar sobre a também cearense Bárbara de Alencar (1760-1832), uma das maiores figuras brasileiras que defendeu a cidadania no tempo da colônia e da escravidão. Ela foi talvez a mais consciente personalidade do que era cidadania numa época em que a dominação e os maus tratos eram considerados normais. Numa época que se construía clandestinamente as bases do ideário republicano. (Foto: Sheila Oliveira)
Neste ano, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura e com apoio da Corpvs e do Banco do Nordeste, realizou sessenta palestras intitulada “A Invenção de Bárbara de Alencar”, em centros culturais, e escolas públicas de Fortaleza, Juazeiro do Norte e Sousa (PB). O projeto, que distribuiu gratuitamente o livro infanto-juvenil “A Invenção de Bárbara de Alencar” para os alunos presentes nas palestras, está entregando, também gratuitamente, uma versão do livro para fazer parte do acervo das bibliotecas públicas de escolas estaduais do Ceará.
Este ciclo de palestras antecede as comemorações dos duzentos anos da revolução de 1817, ocorrida em Pernambuco e estados circunvizinhos, da qual Bárbara de Alencar participou juntamente com seus filhos.
E foi a respeito deste trabalho e de Bárbara de Alencar que Gylmar Chaves conversou com o Papo Cult. Confira:
O que lhe chamou atenção em Bárbara de Alencar?
Ouvi falar pela primeira vez sobre Bárbara de Alencar por meio do cineasta Rosemberg Cariry e do escritor Oswald Barroso. A história dela sempre me fascinou! Então, no início do ano 2000 eu andava a procurar por uma personagem para escrever uma biografia histórica que tivesse provocado rompimentos sociais e políticos. Foi em Bárbara de Alencar que encontrei esse contexto e muitos outros.
A respeito deste trabalho que vem sendo realizado, como os mais jovens recebem a história de Bárbara de Alencar?
Nos últimos três anos realizei mais de 200 palestras pelas diversas regiões do Ceará, chegando à Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. São públicos diversos… No entanto, sempre encontrei boa receptividade entre os alunos das escolas públicas e nos Assentamentos por onde passei. A história de Bárbara de Alencar é muito cativante pelos traços universais do feminino bravio que carrega, por sua paixão pela política e por sua gesta heroica.
Bárbara de Alencar, como vulto histórico, carece de melhor reconhecimento tanto em âmbito local quanto nacional?
Bárbara de Alencar nasceu na época do nosso processo colonizatório em que as mulheres eram proibidas de lerem, escreverem e de participarem de reuniões políticas, além de outras não permissões. Então, podemos perceber que deixamos de ter acesso as inúmeras contribuições que as mulheres deram ao nosso país, muito embora algumas delas tenham conseguido de alguma forma romper com esse rolo opressor que impuseram a historicidade. Mas, os tempos mudaram. E muitas delas estão emergindo porque sempre serão necessárias as suas histórias de vida e comprometimento humano. A ministra Ana Arraes, que é uma das descentes dela, conseguiu que Bárbara de Alencar figurasse no livro dos heróis do panteão nacional.
Sabe-se que Bárbara ficou presa no local onde hoje é o 10ª Região Militar de Fortaleza. O local é minúsculo e ao que parece uma pessoa dificilmente teria condições de permanecer ali. E este fato é questionado. Então temos um erro de história a ser corrigido?
Aquele local foi construído para ser um polvorim, para armazenar melhor a pólvora e protege-la de ataques e de incêndios. Jamais foi local de aprisionamento. Quando Bárbara de Alencar foi presa, a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, onde ele se situa, estava em reforma. Os historiadores Paulino Nogueira e Gustavo Barroso desconstroem a versão de sua prisão nesse local em textos publicados pela revista do Instituto Histórico do Ceará.
2017, marcam os 200 anos da Revolução de 1817. Em particular, você já articula projetos específicos, apesar das palestras serem um adiantado da celebração da efeméride?
Sim! Para o próximo ano irei realizar mais de cem palestras, desta feita, além das escolas públicas e agrovilas, também incluí comunidades quilombolas, indígenas e de pescadores. Acho primordial a difusão do sentimento de cidadania que Bárbara de Alencar imprimiu numa época em que a dominação e os maus tratos eram considerados normais, pois ela defendeu a cidadania no tempo da colônia e da escravidão. Numa época que se construía clandestinamente as bases do ideário republicano. Ela foi talvez a mais consciente personalidade do que era cidadania.
