O Grupo Nóis de Teatro encerra neste final de semana um giro realizado por doze bairros da periferia de Fortaleza com seu espetáculo “Todo Camburão tem um pouco de Navio Negreiro”. O espetáculo, que se apresentou na calçada do Theatro José de Alencar nesta quarta-feira, 08, e quinta-feira, 09, segue para o Canindezinho na sexta-feira, 10, e para o Conjunto Palmeiras no sábado, 11. O projeto de circulação foi selecionado pelo edital Cultura Negra em Foco, do “Baobá”, Fundo para Equidade Racial. (Foto: Luiz Alves)
A peça, que tem direção de Murilo Ramos e dramaturgia de Altemar Di Monteiro, lança mão da mitologia dos Orixás para contar uma estória que discute racismo e extermínio da juventude pobre das periferias, colocando o público diante de reflexões urgentes. A jornada encera neste sábado após passar pelos bairros Conjunto Ceará, Antônio Bezerra, Vila do Mar, Planalto Pici, Itaperi, Pirambú, Serviluz, Carlito Pamplona, José Walter, Centro e Bom Jardim.
“Os bairros escolhidos para receber as apresentações estão entre os de maior índice de casos de violência na cidade”, explica Henrique Gonzaga, ator e produtor. “A ideia, longe de estigmatizar, é provocar, instigar o pensamento sobre o que gera isso e como mudar, além de denunciar a violência do Estado, principalmente por meio da Polícia militarizada”. As estatísticas utilizadas pelo grupo são do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), com base em informações atualizadas pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) no ano de 2013.
O “Camburão” traz à cena uma intensa discussão dialética sobre a criminalização e perseguição da juventude negra das periferias, debatendo também a desmilitarização da polícia brasileira. Para a montagem do espetáculo, o Nóis de Teatro visitou várias comunidades quilombolas do Ceará e do Maranhão, dialogando também com movimentos sociais que pautam as questões da população negra.
Dividido em três atos, o espetáculo conta a estória de Natanael, uma espécie de anti-herói que nasce na periferia, vive inserido num sistema de opressão e violência, mas, aos 18 anos, resolve entrar para a PM. A montagem traz uma dramaturgia épica, onde o ator narrador é o grande foco, numa espécie de “tragédia afro”. Com destaque para elementos alegóricos e representativos do universo do movimento negro no Brasil e no mundo, além de múltiplas referências à mitologia dos Orixás.
O Nóis de Teatro está localizado na periferia de Fortaleza, na Comunidade de Granja Lisboa, no Território de Paz do Grande Bom Jardim. Ao longo dos quase 15 anos, o grupo tem construído uma ação continuada no que diz respeito à circulação de espetáculos, oferta de cursos, intercâmbios e oficinas (teatro e percussão) para a comunidade.
Serviço
Dia 10 de fevereiro, sexta, 19h
“Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro” – Direção: Murillo Ramos
Praça do Canindézinho
Apoio: Fundo Baobá – Edital Cultura Negra em Foco / Parceria Coletivo Favelart
Dia 11 de fevereiro, sábado, 19h
“Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro” – Direção: Murillo Ramos
Praça do Conjunto Palmeiras
Apoio: Fundo Baobá – Edital Cultura Negra em Foco / Parceria Cia Bate Pal
Entrada: Gratuita
