Em 2016, “Alucinação” completou 40 anos de presença marcante na discografia indispensável da música brasileira, trazendo composições como “Apenas um rapaz latino-americano”, “Velha roupa colorida” e “Como nossos pais”. A faixa-título logo se tornou um dos grandes sucessos de Belchior e agora ganha uma releitura de Daíra, cantora carioca que na última semana inaugurou uma série de vídeos ao vivo entoando parte de sua obra. Com o segundo vídeo deste projeto, Daíra oferece uma homenagem ao artista, cujo falecimento foi noticiado no último dia 30 de abril.
A inesperada despedida a um dos grandes ídolos da nossa música acabou por transformar este lançamento, já planejado, em um tributo. Mais do que nunca, se torna importante cantar Belchior, apresentar suas canções a uma nova geração e saudar a importante obra que ele deixa para o cancioneiro popular brasileiro. Em face do luto de seus familiares e de um país inteiro, surgem ainda mais motivos para se cantar Belchior e celebrar suas composições.
Há mais de quatro décadas, o artista se tornou uma das vozes que cantavam as inquietudes de uma geração marcada por revoluções culturais, políticas, raciais e sexuais. Em “Alucinação”, a intensidade de sua interpretação entrega o momento de mudanças que ecoa até hoje no contexto sociocultural do país.
Esse é um dos motivos porque sua obra sempre se manteve atual. Desde o ano passado, Daíra vem fazendo o resgate de algumas dessas canções em um show especial, que agora ganha a forma de uma série de vídeos e, no segundo semestre, se transforma em um álbum completo, com lançamento do selo Porangareté. Para a série Daíra Canta Belchior, performances intimistas vão mostrar o impacto destas canções na música brasileira.
Já a vivência com a obra de Belchior começou bem antes, ainda na infância. Daíra conheceu “Como nossos pais”, na voz de Elis, e “Apenas um rapaz latino-americano” na voz de seu pai, adepto de cantá-la em karaokês imitando a voz do cantor.
“Quando comecei esse show em homenagem a ele, não sabia qual a proporção que isso iria tomar na minha vida. Tentei entrar em contato com pessoas que poderiam dar a notícia para o Belchior, de que eu estava fazendo esse show e falar para ele do disco, que já está pronto. Até mesmo irmãos dele entraram em contato, mas disseram não poder ajudar porque não sabiam mesmo onde ele estava. E então, quando soube da notícia, desabei… Não teria como separar ou dissecar os sentimentos. Nessa nossa profissão é mesmo assim, a gente escuta a letra de uma pessoa e acha que a conhece, fica próximo, íntimo dela de alguma forma. Só me resta acreditar que depois de um ano de trabalho e esforço para erguer essa homenagem, ele possa escutar de onde quer que ele esteja”, analisa Daíra, que estreou a série de vídeos com a canção “Princesa do meu lugar”.
Jovem voz da música brasileira, Daíra tem sua inspiração na MPB e acaba por revelar contornos folk e blues nas releituras que integrarão o novo álbum. As canções são reinterpretadas e recriadas com uma nova roupagem. Assim como na série de vídeos, o vocal tem a companhia do violão de Rodrigo Garcia, que também assina a direção e produção musical. Para o vídeo de “Alucinação”, Augusto Feres complementa a sonoridade com sua guitarra de 12 cordas.
