“A gente era glamourosa. Queria ser bonita. A gente não queria ser do bloco do sujo, não. Porque a maioria dos blocos dos sujos era tudo homem mesmo de barba. De bigode. Só apenas se vestia de mulher. Claro que diferenciava. […] Quando a gente chegava, na época tinha o Canal 2, foi o primeiro canal aqui no Ceará, né?! Chamavam a gente para entrevista. Bicha, era muito glamour, éramos uns artistas […]”. Essa é uma das memórias da travesti cearense, Rogéria, que é umas das três travestis cearenses entrevistadas para o livro “Travesti: carne, tinta e papel”, do historiador Elias Veras que será lançado nesta sexta-feira, 23, às 18h, no hall do Cineteatro São Luiz. (Foto: Divulgação)
As entrevistas feitas com as travestis cearenses, fonte privilegiada da pesquisa, ao lado do material da imprensa, trazem as memórias de resistência, de luta contra o estigma, o preconceito, a violência, a exploração, a abjeção.
O trabalho é resultado da tese de doutorado do autor em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Neste trabalho, analiso a emergência do sujeito travesti em Fortaleza, seu surgimento como nova personagem público-midiatizada e estigmatizada, na passagem do tempo das perucas para o tempo dos hormônios, este último, chamado de tempo farmacopornográfico (virada da década de 1970 para 1980)”, explica Elias Veras.
Para a presidente da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura (ABEH), a professora da Unilab, Luma Andrade, primeira professora doutora travesti do país, a obra proporciona relevantes contribuições para os estudos sobre as travestis e pessoas trans no Brasil. “Elias Veras consegue analisar com maestria o período entre as décadas de 1970 e 1980, problematizando uma série de fontes históricas como jornais, revistas, obras literárias e antropológicas, além das narrativas orais das travestis”, analisa Luma Andrade na “orelha” do trabalho.
O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, historiador Durval Muniz de Albuquerque, que assina o prefácio do livro, afirma que “Travestis: carne, tinta e papel faz a história da produção de corpos transgressores, de corpos transgressivos, de corpos trans. O livro trata da emergência pública do sujeito travesti, de como esse lugar de sujeito foi produzido e habitado historicamente no Brasil”.
Para o historiador, Durval Muniz, o texto traz a redefinição do próprio conceito de travesti, que deixa de ser algo que se porta, que se veste, que se desfila com ele, para ir se tornando uma condição, um lugar de sujeito, um ser, uma identidade de gênero, que vai se deslocando do masculino para o feminino e que, mais recentemente é incorporada às identidades designadas como trans, de transição, de transversalidade, de atravessamento das fronteiras binárias definidas social e culturalmente para os sexos e para os gêneros.
No lançamento, o público vai conferir a performance da artista Rayanna Rayovack que vai interpretar grandes sucesso da década de 1980.
Serviço
Lançamento do livro Travestis: Carne, tinta e papel.
Data: 23/06
Local: Cineteatro São Luiz
Hora: 18h
Mais informações: (85) 9.8822 3040
