Lançamento da Vento Leste Editora explora o diálogo entre literatura e fotografia que marca a trajetória e a vida do autor em uma narrativa agônica sobre degradação urbana
O Livro dos Monólogos – Recuperação para Ouvir Objetos explora e expande o diálogo entre literatura e fotografia que marca a trajetória do escritor e curador pernambucano Diógenes Moura. Conhecido por duas décadas de trabalho como curador de fotografia, sobretudo à frente da Pinacoteca do Estado de São Paulo, ele mostrou sua prosa urgente, intensa e irônica em seis livros anteriores e também nas intervenções poéticas e personalíssimas que comentam as duas centenas de exposições de fotografia que organizou. Aqui, os dois campos de expressão se unem com intensidade e intencionalidade inéditas. “Originalmente, a única coisa que faz sentido pra mim é escrever. Sempre vi a fotografia ligada à literatura”, diz Moura. “O Livro dos Monólogos dá forma a algo que sempre existiu e que venho desenvolvendo mais precisamente nos últimos dez anos. É uma tentativa de irmanar literatura, imagem, fotografia e existência”.
Discreta ou inexistente nos livros anteriores, a fotografia é presença massiva em O Livros dos Monólogos, um lançamento da Vento Leste Editora. A narrativa agônica, dividida em quatro segmentos é atravessada pelas imagens que rodeiam o escritor no dia a dia: sua casa, seus objetos e sua coleção de arte surgem no livro em ensaio exclusivo feito pelo fotógrafo gaúcho Ale Ruaro. A elas, somam-se retratos de família e fotografias em que o próprio Moura registra com um celular a degradação da vida no bairro em que vive há 30 anos, os Campos Elíseos, na região central de São Paulo. Estabelecendo relações múltiplas com a narrativa, numa fricção constante, as imagens contribuem com histórias e personagens, adensam contundências e dão forma a indagações sobre o incessante diálogo entre literatura e fotografia. Ou, nas palavras introdutórias do autor: “Às vezes a palavra vence a imagem. Outras, a imagem silencia a palavra.”
“(…) O Livro dos Monólogos – Recuperação para Ouvir Objetos é uma síntese de mim mesmo. É frágil. Arde. Sangra. Dói. Possui cicatrizes. É como uma sombra que só descansa ao sol do meio-dia. Está nas paredes da minha casa; na luz do abajur que ilumina o outro lado do vidro; nos retratos como veredictos espalhados entre o corredor e o banheiro; nas imagens dos santos e dos orixás dentro e fora dos nichos; na nova porta de entrada pintada de branco depois que o apartamento foi arrombado naquela noite de quinta-feira; no silêncio interrompido pelos gritos na alta madrugada onde homens e homens e homens e mulheres lutam por apenas mais uma pedra de crack; no invisível homem-inseto que circula sorrateiramente por dentro dos livros contaminando as páginas e a biblioteca com seu rastro kafkiano; nos lábios dos autores que li; no verso de algo que está para acontecer.
Nascido em Recife, Diógenes Moura fez parte da equipe que fundou a TV Educativa da Bahia antes de transferir-se para São Paulo, em 1998, e assumir a curadoria de fotografia da Pinacoteca do Estado, onde trabalhou entre 1993 a 2013, realizando mais de uma centena de exposições e contribuindo de forma decisiva para a constituição do acervo fotográfico da instituição. Escreve desde os doze anos. Seu primeiro livro, Mingau de Almas ou O Traço Fixo da Loucura (1982), foi publicado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Depois viriam Tire a Cadeira da Chuva (1986), Elásticos Chineses (1998), Drão de Roma – Dezembro Caiu (2006), Ficção Interrompida (Ateliê, 2010), premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e finalista do Jabuti de Literatura em 2011, e Fulana Despedaçou o Verso (Terra Virgem, 2014). Em O Livro dos Monólogos, amadurece o projeto literário anunciado nos antecessores, extraindo potência poética de uma observação arguta e profundamente envolvida da singeleza humana, da violência que se instala nas ruas brasileiras e da indiferença imoral, ainda que generalizada, diante de ambas.
A narrativa se relaciona a quadrantes específicos de três cidades brasileiras, que o autor conhece por experiência imersiva: o bairro paulistano onde vive, ex-refúgio pacato de velhinhos que hoje registra quatro arrombamentos semanais; o arrabalde de Tejípio, no Recife, onde se criou, numa casa de chão de ladrilho hidráulico depois soterrada por uma linha de metrô; e o bairro da Liberdade, em Salvador, cidade onde viveu durante 17 anos e que tem até hoje tem uma profunda relação entre memória e agonia. Nesses cenários de ruína deflagrada e insidiosa violência, aparições de naturezas diversas emergem, ora no texto, ora na imagem, ora em ambos. Gente real e próxima, gente do passado do autor ou alheio, gente imaginada, gente vista em uma fotografia. A mulher que surgiu de branco, descalça, na chuva, e sumiu, uma noite no Minhocão; o homem abatido com uma flecha cravada no pescoço no centro de São Paulo; a sobrinha transexual que Moura ajudou a criar, Marcele, que é personagem importante no livro; a “menina de nove anos com corpo de criança e rosto de mulher”; a noiva da foto centenária e bordada na parede do gabinete; o próprio Diógenes, em alguns retratos feitos por fotógrafos amigos. Fragmentos de dramas e sonhos dessa galeria híbrida de personagens – que Moura procura entender “entre vida e morte, entre público e privado, na janela das suas casas, numa notícia de jornal, na tela de um computador ou celular, nos gritos das ruas, na esquina mais próxima”– se acumulam no texto veloz. A eles, juntam-se os invisíveis: gente em situação de rua e usuária de crack que mora sob invólucros de plásticos no centro de São Paulo.
“ São Paulo, terça-feira, 14h50. Esquinas das avenidas Angélica e São João. Ainda encharcado pela tempestade do início da tarde, um homem dorme jogado sobre o lixo na cidade onde ninguém olha para o lado, nada vê, nada sabe. Na cena da cidade o “homem desaparece” diante dos nossos olhos. Um homem e uma criança embaixo de um casulo de plástico, fumando crack. Todos esses homens ou mulheres que estão “guardados” próximos aos nossos pés, como um pacote, têm nome e sobrenome. (..) Todos eles percebem quando passamos ao lado e, muitas vezes em silêncio, caminhamos em direção ao próximo pacote-existência. Não porque somos monstros, mas apenas porque somos mortais. E em nossas vidas não cabe a vida desses outros. Não tem nada a ver nem com Deus, muito menos com piedade. Tem a ver com as garras dos tempos em cólera (…)
O Livro dos Monólogos – Recuperação para Ouvir Objetos integra um projeto pessoal expressivo que, de certa forma, se contrapõe a boa parte do trabalho de curadoria de Moura. Ao agregar ao próprio texto a poética de fotógrafos que o mobilizam pessoalmente, escapa do que considera a “mentira” da fotografia contemporânea. “A fotografia de hoje não sangra”, diz. “É apática. É algo relacionado ao que o perverso “mercado” quer consumir, à necessidade de vender, aos anseios do galerista ou do curador mais próximo. Muito poucos têm coragem de ir fundo, arriscar, enfrentar esse imenso abismo em que estamos metidos num país que mata 168 pessoas por mês.”
O Livro dos Monólogos – Recuperação para Ouvir Objetos
Textos de Diógenes Moura
Lançamento
Dia 6 de dezembro, quinta-feira, às 19h
Livraria do Solar – Fotofestival Solar
Noite de Autógrafos com Diógenes Moura
Ficha Técnica
Foto da capa e ensaio no apartamento 44: Alê Ruaro
Todas as outras imagens foram feitas com um celular pelo autor
Preparação e revisão: Armando Olivetti
Textos em inglês: Roberto Schramm Jr.
Projeto gráfico, imagens de fundo e vinhetas: Ciro Girard
Coordenação editorial e produção gráfica: Heloisa Vasconcellos
195 páginas
Editora Vento Leste