A Cia de Dança do BCAD apresenta nas quintas-feiras de janeiro, às 20h, no Teatro Dragão do Mar, o espetáculo “O Quinze, A Escassez da Alma”, coreografado por Gleidson Vigne, carioca, diretor da Nimo Cia de Dança do Rio de Janeiro. Gleidson foi bailarino da Quasar Cia. de Dança e do Ballet da Cidade de São Paulo. O novo espetáculo foi pensado, idealizado e pesquisado pela professora Janne Ruth e bailarinos da Cia de Dança. Textos e laboratórios para “O Quinze” também tiveram influência e participação de Janne Ruth, Ruth Arielle, Felipe Souza, Atenita Kaira e Gleidson Vigne. A direção geral é de Janne Ruth. O novo espetáculo é baseado na obra homônima da escritora cearense Rachel de Queiroz. Foto: Divulgação
Escassez, seca, solidão… Uma palavra leva a outra como que numa simples continuidade. Não são estas características inerentes à própria humanidade? Parece um corredor que todos os seres percorrem por necessidade. Podem-se definir estas características apenas por acontecimentos meramente físicos ou externos? O que é uma seca senão algo que primeiramente ocorre dentro dos homens? Essas analogias são feitas através do novo espetáculo do BCAD Cia de Dança. Graças ao trabalho incansável da equipe de criação de espetáculos e a garra dos nossos bailarinos, o BCAD Cia. de Dança tem alcançado enorme destaque trazendo para o Ceará mais de 300 prêmios e o reconhecimento do público e da crítica pelo seu trabalho.
“O espetáculo “O Quinze” é moderno, apesar de relatar a história da Seca baseado no Livro de Rachel de Queiroz escrito em 1930, seu primeiro romance, mas se refere à Seca de 1915, que foi considerada a pior seca de todas as décadas. Lembrando que há cinco anos o Ceará tem enfrentado uma seca bastante dolorosa, no qual as pessoas comparam com a estiagem de 1915. No livro, a escritora narra toda uma história que tem o município de Quixadá, no sertão central, como referência inclusive dos campos de concentração onde ficavam os flagelados da seca. Já no espetáculo, fazemos menção ao município de Senador Pompeu”, onde nasceu o pai de Janne Ruth e sua família.
Ruth pesquisou in loco a triste história dos currais e é de lá que vem sua inspiração. O ser humano é constituído por uma teia extensiva e intensiva de relações, problemáticas e questões. De tal forma que já não sabemos onde a seca, a tristeza ou a solidão começam, qual vem primeiro, se vem de dentro ou de fora, não sabemos nem ao certo se existe essa divisão entre dentro ou fora. Uma seca começa no nordeste brasileiro e pode se espalhar por todo o país, em questão de pouco tempo. É nesta incapacidade de definir a escassez na modernidade, o BCAD propõe momentos de contraponto dessas questões através da arte. A seca, nos dias de hoje, não é mais um fenômeno do sertão. Não é mais somente um fenômeno que tornava o sertanejo triste porque não teria seus dias de colheita e/ou fartura. Parece que a seca alcançou a área urbana… Com esses questionamentos, o espetáculo “O Quinze pretende fazer o público refletir através da dança esse tema tão atual e intrigante que envolve as ações do homem e as inexplicáveis reações da natureza.
Currais, campos de concentração, fome, flagelo. Chamamos tudo isso de Escassez, esses currais existem até hoje, a desigualdade social mostra esse cenário abertamente, o pobre o rico, o branco o negro, os bairros chiques e as favelas e morros que abrigam a maior parte da população vivendo com muito pouco ou quase nada. O que as pessoas sabem sobre os currais? Para quem não sabe, as autoridades estaduais chamavam de “Campos de Concentração”, uma denominação que ainda não era associada ao horror do nazismo alemão. No início do século 20, quando o Nordeste vivia sua pior seca, as autoridades construíram esses campos de concentração, para evitar que os agricultores famintos do Ceará migrassem em massa para a capital Fortaleza. Milhares de famílias viviam nesses currais em condições sub-humanas, amontoados, quase sem comida e água e cercado por guardas. Os únicos vestígios deste episódio sinistro da História estão em Senador Pompeu, município onde nasceu e mora a família da professora Janne Ruth. Lá ainda estão de pé as carcaças dos prédios onde os guardas faziam o controle ou dos armazéns onde se guardava a pouca comida, inclusive existe uma testemunha viva, D. Carmelia Gomez Pinheiro, filha de um dos vigias do campo. Hoje com 97 anos ela relata que por dia morriam quatro a cinco pessoas de fome, e que era possível ouvir o clamor por água e comida.
Dias 10, 17, 24 e 31 de janeiro de 2019, às 20h, no Teatro Dragão do Mar.
Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia).
Classificação etária: Livre.
