Lançado no último dia 8 de fevereiro e de forma independente, “Jardim do Invento”, álbum de estreia de Duarte Dias, é composto por seis faixas de sua autoria e por ele interpretadas, num trabalho meticuloso e artesanal que contou com arranjos do multi-instrumentista e professor Carlinhos Crisóstomo, em cujo estúdio foram feitas as gravações. Foto: Divulgação
Dialogando com diversas vertentes do cancioneiro brasileiro e universal, “Jardim do Invento” se propõe uma obra que transita por referências sonoras e poéticas munida de singularidade e apuro narrativo, tendo na memória pessoal o ponto de partida do projeto, como bem expressa a capa do álbum, que mostra Duarte Dias aos 4 anos de idade – já, então, abraçado com a música.
“Essa imagem evoca algumas das lembranças mais antigas que tenho em relação à música, representadas pelo meu encantamento com aquela pequena guitarra de brinquedo que ganhei de minha mãe. Aquele presente funcionou como um toque de despertar e o momento teve um quê de solene e mágico, por sorte registrado numa fotografia que traz como cenário o jardim da casa onde morávamos, um lugar no qual eu gostava muito de brincar”, relembra Duarte, ao falar da imagem que escolheu para ilustrar a capa do álbum.
“Como se trata do meu primeiro álbum, achei natural fazer essa referência, essa leitura temporal, transformando essa vivência em conceito, tecendo uma metáfora em torno de um jardim, lar de muitos reinos e espécies. Um lugar que, apesar de normalmente planejado, não está a salvo do inesperado e do inusitado, algo que busco com minha música”, ressalta Duarte Dias, conhecido por seu trabalho como cineasta, produtor de filmes e de festivais, curador e programador do Cineteatro São Luiz e coordenador de Política Audiovisual da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult), mas para quem a criação musical sempre esteve presente.
Música desde os anos 80
Com trajetória musical iniciada na década de 1980, com apresentações e premiações em festivais de música do Ceará, Duarte Dias trabalha desde então suas composições, em que letra e música buscam constituir um corpo único, com completa interação entre letras, imagens, sons e significados.
“Minha jornada como artista da música tem sido essa, de estar sempre buscando essas possibilidades de integração sonora e poética presentes no ato da criação. E é a alegria da criação, na verdade, o que fundamentalmente me motiva, seja qual for a área em que estiver atuando”, diz Duarte Dias, que mostra segurança e propriedade como compositor que também assume o vocal nas seis faixas de “Jardim do Invento”.
No cinema Duarte Dias se destaca na cena cearense desde os anos 2000, com a realização de um documentário sobre a Praça do Ferreira. A partir de então fez mais dois filmes de curta-metragem, ambos premiados em festivais nacionais e internacionais, acumulando ainda prêmios como fotógrafo e roteirista e dirigindo um programa de televisão e um festival de cinema, o FestFilmes – Festival do Audiovisual Luso Afro Brasileiro.
“É claro que o cinema e a música, assim como as demais linguagens artísticas, possuem seus próprio códigos e métodos, mas, para mim, tudo está integrado pelo viés da criação”, reflete Duarte Dias.
“Jardim do Invento”
“Jardim do Invento” abre com “Manhã”, uma balada luminosa cujos versos remetem a uma relação atemporal e cíclica, em que geografias, seres e elementos se transmutam através de uma narrativa que evoca a necessidade de afirmação e posicionamento, apregoando que “quem for preciso seja amor”.
A delicada “Jardim do Invento” é a faixa que dá título ao trabalho e foi composta justamente com esse propósito, segundo Duarte Dias. “É uma canção cheia de referências musicais e literárias, gravada com acompanhamento de violão, baixo e bandolim, num trabalho excepcional do Carlinhos Crisóstomo, amigo e responsável pelos arranjos do álbum. Tem um pouco de tudo nessa música, minhas influências estão quase todas lá… Mas não vou dizer quais, vou deixar isso para os ouvintes.”, diz Duarte.
A hipnótica “Yin Yang” é a terceira faixa do álbum, um reggae com uma letra forte e incisiva. “Nessa eu quis tratar de algumas questões que me são caras, essa coisa dos contrários, da dualidade, da luz e das trevas, do bem e do mal… A música foi composta faz tempo, mas o tema está super atual, basta dar uma olhada no noticiário… Minha abordagem vai num sentido mais filosófico, ancestral, algo que remete a conceitos profundos e presentes em diversas culturas politeístas. Uma contribuição musical para o debate que está aí, para os confrontos que estão aí, creio”, resume o compositor.
“Meu amigo Raulzito”, a quarta faixa do álbum, se insere no contexto de uma tradição de intertextualidade entre obras e autores da música popular brasileira, sendo uma das mais célebres a que contrapôs Noel Rosa (“Rapaz Folgado”, de 1933) a Wilson Batista (“Lenço no pescoço”, de 1933), ou ainda Caetano Veloso (“Dom de iludir”, de 1982) ao mesmo Noel (“Pra que mentir”, de 1937). No caso, “Meu Amigo Raulzito” é, além de uma homenagem a Raul Seixas, uma resposta direta, inclusive no estilo, à célebre “Meu Amigo Pedro”, marcante criação do “Maluco Beleza”.
“Andaluza”, quinta faixa do álbum, é uma das mais recentes composições de Duarte Dias. A canção trata de um tema universal, o amor entre duas pessoas, mas buscando uma poética que se expressa, em parte, por metáforas, ao tempo em que os violões tocados por Carlinhos Crisóstomo constroem tessituras influenciadas pelo flamenco, reforçando o caráter intimista e dramático da composição.
A última faixa do álbum é a divertida “Sambinha”, que adentra o território do samba, mas no contexto das décadas de 1920 e 1930, quando imperavam nomes como Noel Rosa, Ismael Silva e Wilson Batista, entre tantos outros. “Esse é um período da música brasileira pelo qual tenho grande fascinação e a ideia é realizar, num futuro próximo, um trabalho autoral inteiramente dedicado a essa vertente criativa da nossa musicalidade”, conclui Duarte Dias.
Serviço
“Jardim do Invento”. Álbum do compositor Duarte Dias. Arranjos: Carlinhos Crisóstomo. Já disponível gratuitamente nas plataformas digitais e nos aplicativos musicais. Para acessar, basta digitar o nome Duarte Dias ou o título do álbum – “Jardim do Invento” – na busca do seu respectivo app. O disco também pode ser ouvido na íntegra no Youtube: https://goo.gl/Ha3mZh. E ainda no perfil de Duarte Dias no Facebook – https://bit.ly/2thajoA – ou com pedido gratuito pelo e-mail duartediasoficial@gmail.com
