Vida da minha vida é a primeira exposição individual do artista Yuri Firmeza (SP, 1982), que tem construído sua obra entre Ceará e São Paulo, e que apresenta, com o conjunto de trabalhos inéditos apresentados no Centro Cultural do Banco do Nordeste-Fortaleza, desdobramentos muito recentes de sua obra, portanto ainda pouco conhecidos do público. Além do apoio do Banco do Nordeste, a mostra conta com o patrocínio da Secretaria de Cultura do Ceará (Secult), por meio do edital de Artes Visuais.
Nacionalmente conhecida por suas preocupações políticas (sobretudo com o trabalho Souzousareta Geijutsuka, 2006, que envolveu a criação de um artista inventado que teria uma mostra no Museu de Arte Contemporânea do Ceará e a problematização da repercussão criada pela mídia), a obra de Firmeza não se restringe, todavia, a preocupações concernentes ao campo da arte e suas formas de funcionamento, e é desse transbordamento que o público cearense participará na mostra Vida da minha vida, com curadoria de Clarissa Diniz (PE).
Entendendo que arte “é menos a produção de objetos e mais a produção, a invenção, de uma vida transbordante”, que por sua vez é, “parafraseando Mário Pedrosa (…), o exercício experimental da liberdade” (Yuri Firmeza em entrevista a Suely Rolnik, 2011), os trabalhos recentes do artista são feitos a partir de encontros/relações (com familiares, memórias, imagens, cidades, silêncios, corpos), ao passo que também os suscita. Ao “voltar-se” para “si”, retroativamente “volta-se” para o outro, propondo um espaço-tempo de contato, subjetividade, invenção.
Dois trabalhos da exposição (A Fortaleza, 2010 e Forte e grande é você, 2011) foram elaborados a partir de retratos do artista. Em A Fortaleza, estão postas lado a lado duas imagens de Yuri Firmeza contraindo os músculos do braço (uma na infância e outra na idade adulta) diante de uma vista da cidade de Fortaleza.
À ironia de força que sobressai do retrato magro do artista, soma-se a constatação da forte especulação imobiliária que vivencia o Brasil, na obra evidenciada pelo vertiginoso crescimento dos prédios da paisagem.
Desenvolvimento econômico, social e urbano são ironicamente postos em conversa com o desenvolvimento “humano” e da subjetividade, exploração da relação indivíduo-cidade já presente em obras anteriores de Firmeza, como as séries Demarcação de Território (2006-2008), Ação 3 (2005), Entre (2010) e Arresto (2010).
Por sua vez, Forte e grande é você (2011) – pequeno retrato do rosto do artista, quando criança, vestindo roupa de exército e dentes de vampiro, do qual emana refrão homônimo, trecho de música (1983) da banda punk Cólera – circunscreve, numa dimensão diminuta e íntima, similar sensação de impotência.
O movimento intimista sugerido por Forte e grande é você se realiza também na obra Deserto Povoado (2010). Uma gaveta de proporções humanas, situada ao chão, se abre para que nela penetremos, fechando-nos num ambiente extremamente luminoso, coberto por sal grosso, e no qual circula um som que é uma mixagem de áudio do artista (ainda na barriga de sua mãe) com seus primeiros suspiros e choros, a outros sons eletrônicos, conformando um padrão sonoro que, não sendo música ou fala, demanda um tipo particular de escuta, de si, do outro, do mundo.
A horizontalidade que Deserto Povoado demanda ao corpo, misto de descanso e morte, proteção e tensão, se coloca noutra densidade na videoinstalação Vida da minha vida (2011), obra que intitula a mostra, e que é a primeira parte de uma pesquisa ainda em processo, envolvendo a relação de Yuri Firmeza com sua avó.
Na instalação apresentada no CCBNB, uma imagem em super-8 de uma mulher idosa boiando sobre uma água tranquila é contraposta a imagens de mares rebentando violentamente, tensionando, numa escala corporal, a calma e a confiabilidade suscitadas pela imagem da avó do artista na água.
Polaridades que não se anulam, mas que complexificam, abrindo espaço para a ambivalência que desestrutura a uma racionalidade hierárquica e normatizante. Para Yuri Firmeza, “a vida [é] vontade e a arte [é] um modelo alternativo para a racionalidade. Essa é a dimensão clínica da arte, a alegria do corpo, a superabundância da vida” (Yuri Firmeza em entrevista a Suely Rolnik, 2011).
Integrando a mostra Vida da minha vida, será lançado o livro Vida da Minha Vida, que apresenta a produção de Yuri Firmeza desde 2004, contando com textos de Paulo Herkenhoff (RJ) e Clarissa Diniz (PE), bem como com entrevista inédita com o artista, realizada por Suely Rolnik (SP). O lançamento do livro, que tem patrocínio de SECULT e CCBNB, está prevista para Setembro. Também no contexto da programação da exposição, haverá um bate-papo com o artista e a curadora nesta terça, 28 , 18h, no CCBNB.
Vida da minha vida, primeira exposição individual do artista visual Yuri Firmeza.
De 28 de junho a 31 de julho de 2011 (horários de visitação: terça-feira a sábado, de 10h às 20h; e aos domingos, de 12h às 18h).
Centro Cultural do Banco do Nordeste-Fortaleza
Rua Floriano Peixoto, 941 – Centro – fone: (85) 3464.3108
