Leopoldo Pacheco, atuação em Piedade na Mostra de Teatro Transcendental.
A peça “Piedade” (SP), encenada pela Cia. Bendita Trupe, simula um hipotético encontro póstumo que une as três figuras centrais do crime ocorrido em 1909 e que levou à morte o escritor Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”. Com a participação do ator Leopoldo Pacheco, da Rede Globo e que atuou recentemente na novela Ti Ti Ti, “Piedade” faz parte da programação da 9ª edição da Mostra Brasileira de Teatro Transcendental e será encenada no sábado, 27, no Teatro Via Sul, em duas sessões, às 19 horas e às 21 horas. Os ingressos para os espetáculos da 9ª Mostra Brasileira de Teatro Transcendental podem ser obtidos mediante a doação de 2 kg de alimentos não perecíveis e um (1) livro não-didático em cinco pontos de troca localizados nos shoppings Aldeota, Benfica, North Shopping e Via Sul, além da sede do Hemoce.
Sobre a peça “Piedade”
Piedade é um espetáculo que nasceu em 2010, comemorando os 10 anos da Cia. Bendita Trupe, parceria entre a diretora Johana Albuquerque e a atriz Jacqueline Obrigon. A dupla convidou o dramaturgo Antônio Rogério Toscano para escrever o texto e os atores Leopoldo Pacheco e Daniel Alvim para, junto com Jacqueline, integrarem o elenco deste projeto de retomada ao teatro adulto pela Cia. Bendita Trupe. Piedade é também uma homenagem aos 100 anos da morte de Euclides da Cunha, um dos maiores pilares da literatura brasileira.
Em Piedade, Euclides, Anna e Dilermando são colocados frente a frente depois da morte, revivendo e reconversando sobre os fatos acontecidos, num colóquio em que cada um tem a chance de dizer aquilo que nunca foi dito, na tentativa de reconstruir sua imagem diante do outro. Mais do que um julgamento póstumo, trata-se de uma possibilidade de redenção: um resgate ao passado que, através da exposição das diferenças e desavenças, traz um novo olhar sobre os personagens, esclarecendo as razões de terem deixado os acontecimentos ganharem a dimensão do inexorável. Algumas vezes, os personagens agem confessa e emocionalmente, como se reexperienciassem suas vivências mais dolorosas; noutras quase nos narram as ações de forma distanciada, sugerindo serem intérpretes e, paralelamente, analistas de suas próprias vidas; e por outras, desencarnados de suas corporalidades e paixões, revelam distância temporal e indiferença emocional, contextualizando uma acareação póstuma, em que nada efetivamente poderá mudar o rumo do já acontecido. Flashes de cenas, depoimentos, memórias, fragmentos de cartas, diários, diálogos e triálogos vão trazendo a tona os fatos e sentimentos que sucederam, culminaram e antecederam o famoso crime.
A cenografia de Marcelo Larrea resume-se a apenas 3 cadeiras, que apontam para um espaço de conversa, de diálogo, trazendo a dimensão de um encontro intimista. Os figurinos de Marina Reis sugerem um corte realista, trazendo os ares dos primórdios da República, importante contexto da estória ocorrida no começo do século XX, mas com um tratamento corroído, como se o tempo devastado resultasse em oxidação e ferrugem. A música de Pedro Birenbaum climatiza essas imagens, criando uma paisagem sonora celeste e etérea e, paralelamente, densa e florestal, às vezes elevando as situações ao universo do cósmico – já que tudo pode estar se passando numa hipotética Eternidade -, em contraposição à sons mais brutos e ácidos, que remetem à tormenta de emoções da vida terrena revisitada. A iluminação de Lúcia Chedieck colabora para o desenho de um jogo demarcado, que setoriza a movimentação dos atores, criando uma ilusão de espelhamento em que os casais se cruzam, reforçando a situação triangular e revelando a interdependência entre os três personagens. Leopoldo Pacheco é o brilhante e atormentado Euclides; Jacqueline Obrigon é a forte e pioneira Anna; e Daniel Alvim é o garboso e apaixonado Dilermando. O projeto foi concebido pela diretora Johana Albuquerque, que coordena o trabalho de toda a equipe.
Euclides da Cunha; Anna da Cunha, posteriormente, de Assis; e Dilermando de Assis foram vítimas da hipocrisia, mediocridade e conservadorismo que determinava as relações afetivas do começo do século XX. Sexo, paixão e morte estão presentes em quaisquer vidas e a qualquer momento podem desviar nossos rumos sociais para uma situação inóspita e irrevogável. Hoje, a Tragédia da Piedade merece ser revisitada em sua totalidade com um olhar renovado da modernidade, mostrando que aquele famigerado incidente poderia ocorrer com qualquer um de nós.
Piedade é um espetáculo que não julga, mas apresenta os elementos para que a platéia, atue, um século adiante, como júri e cúmplice desta fatalidade, publicamente conhecida como “Tragédia da Piedade”.
