Mostra traz o desejo latente em seis
diferentes versões dramatúrgicas.
Presente em diversas civilizações, o teatro tem se caracterizado como lugar de exercício estético e crítico de questões sociais. Em jogo constante com padrões e normatividades, podemos identificar criações teatrais que se propõem a explorar limites e censuras construídas nos processos da vida em sociedade. Pulsões cerceadas e o reflexo do outro e do coletivo no indivíduo são abordagens recorrentes em textos e encenações.
Expressar um olhar interessado a essas produções é o objetivo da III Mostra de Teatro Despudorado, a ser realizada a partir desta terça-feira, 11, até 15 de setembro pelo Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza, com a apresentação de seis espetáculos de cinco grupos. Nessa edição, o desejo em suas diferentes versões é tema latente nos seis espetáculos da Mostra. O despudorado dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues é ainda celebrado em seu centenário de vida, por sua importância singular para o moderno teatro brasileiro.
Sentir-se despudorado é um ato de permissão. Possibilitar-se a uma experiência teatral é também despudor. As entradas são gratuitas e os ingressos distribuídos uma hora antes do início de cada sessão.
Espetáculo de abertura
O espetáculo que abre a mostra é “Perdoa-me por me traíres” (foto acima), de Nelson Rodrigues, e será apresentado pela Companhia de Teatro Engenharia Cênica, de Barbalha (CE), que acaba de se apresentar, com casa cheia, no Teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro, nos últimos dias 15 e 16.
A montagem do espetáculo entrou no circuito nacional das comemorações aos 100 anos do Anjo Pornográfico, através do Prêmio Funarte Nelson Brasil Rodrigues, 2012. Em Fortaleza, o espetáculo será encenado no palco principal do Theatro José de Alencar, nesta terça, 11, às 19 horas.
O espetáculo tem como foco principal os sentimentos humanos que envolvem relações passionais de amor, traição, ódio e vingança. Mesmo escrito na década de 50 do século passado, o texto ainda é polêmico, pois trata da hipocrisia social, da falsa moral, corrupção, relações incestuosas e assassinato por amor em desmedida.
Outro ponto de discussão são as cenas que trazem textos como: “o marido que bate tem suas razões”, “amar é ser fiel a quem nos trai”, “a adúltera é mais pura porque está livre do desejo que apodrece dentro dela”, “com que roupa a polícia vai prender os deputados?”.
O ciúme, a dissimulação, a prostituição juvenil, a exploração sexual por políticos de grande respeitabilidade, clínicas clandestinas de aborto são temas suscitados em “Perdoa-me por me traíres” – que com quase meio século depois de sua estreia, ainda causa espanto. A encenação propõe uma mistura de estilos dramáticos, há a presença do trágico, trágico-cômico, melodramático, expressionismo e muita brasilidade.
