De volta a Fortaleza depois de participar há
algum tempo da Festa 20 e Poucos Anos. Foto: Joanice Sampaio.
Jornalista, cantor, DJ, produtor, apresentador de TV, locutor de rádio, e autor de livro, nos anos 1980 esteve a frente de uma das bandas mais divertidas do BRock, a banda Magazine e seus sucessos Tic-Tic Nervoso, Eu Sou Boy. Também é autor do Almanaque do Rock, seus projetos estão sempre ligados à música e em janeiro sua banda atual, Kid Vinil Xperience lança DVD ao vivo.
O Herói do Brasil esteve em Fortaleza recentemente e falou com exclusividade com o Papo Cult. Simpático e bem humorado, Kid Vinil nos recebeu e falou sobre os anos 80, seus tempos de Magazine, suas produções atuais e mercado.
Com vocês, Kid Vinil!
O que você acha destas festas anos 80?
Eu acho legal porque é um espaço que a gente tem. Porque hoje, claro, qualquer espaço na mídia a gente tem de aproveitar. E essas festas anos 80 acontece pelo Brasil inteiro não só no Rio, em São Paulo, mas em Manaus, aqui em Fortaleza tinha essa. Mas em vários lugares do Brasil eu já fiz festas desse gênero e ainda faço. A gente reúne varias pessoas. Em São Paulo mesmo eu fiz uma recentemente que era eu, o Nasi, Kiko Zambianchi, Marcelo Nova. Aí a gente faz um show meio comunitário, uma banda fixa tocando varias músicas. Uma jam session mesmo. Hoje tá tão difícil, o mercado é super competitivo e é bom que a década de 80 seja relembrada como outros períodos da música brasileira deveriam como, a Jovem Guarda já foi revisitada. Eu acho importante que tudo isso seja revisitado, seja lembrado e que os artistas tenham espaço. Não é porque a gente pertenceu a uma época que a gente morreu ou não tá mais em atividade. Mas todos estão aí tentando mostrar os seus trabalhos. E esse revival dos anos 80 eu acho saudável nesse sentido, no sentido de que a gente pode voltar a fazer show, voltar a mostrar o nosso trabalho que até pouco tempo atrás tava complicado.
Você acha que os anos 80 foram os anos definitivos do rock nacional?
Na verdade a década de 80, acho que tudo tava meio que do nosso lado. Nós pegamos uma época em que a música popular brasileira tava meio em baixa e o rock dos anos 80 veio a calhar porque era uma música divertida, dançante, uma música que tinha poesia, tinha bom humor, tinha cada banda fazendo um tipo de música. Então eram muitas bandas, muitas opções e o mercado aberto pra gente, ainda não existiam essas coisas mais populares como o sertanejo universitário, a onda do pagode ainda não tinha acontecido, funk, axé essas coisas. Funk era coisa de periferia do Rio de Janeiro, não era uma coisa tão popular. Então o rock era a única alternativa musical naquela época paras pessoas que queriam se divertir um pouco. Foi um momento importante dentro do rock brasileiro porque todo mundo teve espaço, a mídia abriu as portas, as gravadoras também e foi uma época em que se vendeu muito disco também, ainda era a época do vinil, do consumo de disco, não existia internet. Então uma série de razões que fizeram da década de 80, uma época produtiva, importante pra o rock brasileiro. Acho que tudo isso foi, o momento certo a hora certa que tudo aconteceu. Acho que difícilmente aconteceria outro movimento como aquele.
Por que o Magazine acabou? A banda vai se reunir para gravar um DVD, isso significa uma volta definitiva?
Na verdade, o Magazine fez um LP, os sucessos “Tic-Tic Nervoso”, “Eu Sou Boy”, o tema da (novela) Gata Comeu. A banda tava indo superbem, mas aí por crises internas… Eu acho que banda são quatro pessoas, a gente entrou num problema interno, de um não suportar mais o outro, aquelas crises internas, grana também, empresários que nos roubavam… Uma série de razões que a gente acabou meio se desentendo e acabando a banda. Eu continuei minha carreira sozinho, trabalhando em rádio, em TV, fazendo minhas coisas multimídia que eu sempre fiz. Então me defendi pelo meu lado. Tive projetos em carreira solo. Até tentei reunir novamente a banda numa época, mas não deu muito certo. Não era mais como antes. Infelizmente, porque a gente poderia ter tido uma carreira muito mais extensa como os Paralamas tiveram, os Titãs tiveram, mas infelizmente a gente não conseguiu segurar a onda e eu tive de partir para um trabalho sozinho.
Hoje eu tenho uma banda, chama Kid Vinil Xperience. Eu tô soltando o DVD dessa banda que a gente toca, claro, eu carrego comigo as músicas do Magazine. Nesse DVD ao vivo eu coloco coisas do Magazine também porque foi a minha primeira banda. Mas a verdade é um trabalho solo com uma banda de apoio que não tem ninguém que trabalhou comigo no Magazine. É uma banda nova, minha e nós gravamos um DVD ao vivo com alguns sucessos do Magazine, algumas coisas inéditas e a gente solta agora em janeiro.
Vocês regravaram uma música do Caetano. Na época o que ele achou da versão?
Na verdade foi por sugestão dele que nós gravamos. A Globo queria uma versão. Essa música o Caetano gravou no Velo com voz e violão, é uma versão acústica. A gente tomou um susto porque ligaram pra nós dizendo se a gente queria gravar a música pra abertura da novela. Nossa pra nós é uma honra, claro. Aí nós gravamos, o Caetano mandou até o saxofonista dele, o Zé Luiz. O Zé Luiz ajudou a gente num arranjo de saxofone na introdução da música e o Caetano com certeza. Eu ouvi bastante comentários e o próprio Zé Luiz falou que ele gostou da versão e era o que eles esperavam. Eles queriam que a música tivesse uma levada mais rock.
No final dos anos 70 você trabalhava em gravadora. Isso influenciou a inserção do Magazine no grande cenário musical?
Eu conheci muitos produtores. Eu comecei a trabalhar em gravadora em meados dos anos 70 e nessa época eu trabalhei com muita gente, com grandes produtores, inclusive o produtor Penna Schmitt, o produtor que produziu a gente que trabalhava comigo numa gravadora e ele quem conseguiu contrato pra gente gravar. De certa forma foi importante tá envolvido no meio de gravadora pra que a gente conseguisse alguma coisa também, mas o importante era que naquela época as pessoas iam ao show pra assistir e ver a banda, o que aconteceu conosco. Foram uns produtores e diretores da Warner num show que a gente tava fazendo no Vitória Pub em São Paulo. Eles assistiram a banda, gostaram e pediram imediatamente que o Penna Schmitt entrasse em contato e conversasse pra gente gravar pela Warner foi legal. Acho que isso de tá envolvido nesse meio é importante. Eu não comecei a trabalhar com gravadora com essa intenção. Na verdade, eu queria trabalhar com música. E de certa forma eu fui unindo o útil ao agradável. (risos)
Kid Vinil é multimídia da música. Qual atividade te dá mais prazer? É o jornalismo musical, é a TV, é estar produzindo, é estar tocando…?
Eu gosto muito de fazer rádio. Eu trabalhei muito tempo em rádio e como DJ em rádio também. Então essa atividade em rádio pra mim é algo o que eu mais gosto. Eu tenho um programa hoje numa rádio pela Internet, é a Brasil 2000, lá de São Paulo, que eu trabalhei muito tempo com eles e hoje eu tenho um programa, toda segunda-feira a gente tem um programa novo e depois fica no site da rádio. Gosto de trabalhar como DJ, gosto também com banda. Acho que de tudo um pouco, mas a minha atividade preferida sempre foi o rádio.
Mas o que não toca nos pick ups do Kid Vinil?
Ah, essas coisas populares. Eu não gosto de sertanejo universitário, até admiro o Sertanejo de raiz, Tonico e Tinoco. Esse tipo de música popular de hoje, o sertanejo universitário em hipótese alguma. Essas coisas grotescas, populares de Michel Telo a Luan Santana, essas coisas não vão. Funk carioca também eu não engulo. Esses pagodeiros dor de corno também não dá pra engolir. Pagode pra mim era é o Martinho da Vila, o Zeca Pagodinho, o Paulinho da Viola. Nessas coisas eu sou bem radical, sabe? E talvez até obscuro de certa forma porque eu acho que a boa música popular brasileira tava lá no passado. Hoje tem coisas legais. Eu gosto de Lenine, gosto de Zeca Baleiro, gosto de um monte de gente que já tá aí consagrada, mas essas coisas populares de hoje eu não consigo. Não tocam lá em casa.
Inclusive você é tema de uma música do Zeca Baleiro, o que você achou dessa homenagem?
Foi muito divertido porque eu não conhecia o Zeca na época. Aí ele me mandou uma fitinha com a demo da música. E eu morri de rir. Eu falei: “Nossa esse cara tá me zoando, mas é legal!” Ele queria que eu participasse da música, na época eu fui pra França participar de um festival de gravadoras e não deu certo participar da gravação. Depois quando que saiu o disco logo peguei o CD pra ouvir, toquei no rádio e “olha a música que o cara fez pra mim” e num disco que nós fizemos pela Trama nós fizemos uma resposta dizendo que o Zeca deveria gravar um LP porque o LP tava ficando cult. Aí era uma zoeira com ele. Ele adorou também (risos). Chama Zeca Baleiro a música saiu pelo disco do Magazine pela Trama.
Já que você falou em gravadora, a respeito do mercado, as bandas, os artistas já não precisando tanto das gravadoras para aparecer. Hoje há os meios digitais, os festivais independentes. Como você vê a configuração desse mercado?
Mudou muito. Nos anos 80 a gente vendia disco de vinil, depois na década de 90 a explosão do CD e hoje a música digital. As gravadoras perderam um pouco esse papel. Hoje é muito mais comum as bandas acontecerem na internet de forma independente, sabe? Eu mesmo gravo coisas com a minha banda num estúdio caseiro, se quiser fazer um CD manda fazer, se não, disponibiliza só no meu site. Hoje é mais fácil esse tipo de coisa e não há tanta necessidade de gravadora. Claro que artistas grandes (Roberto, Ivete, Chico…) dependem da gravadora. Mas pra quem ta começando não é tão importante, a não ser que a gravadora se proponha a divulgar bem. Acho que a única coisa que seria aproveitável numa gravadora é essa coisa da promoção, mas que hoje se a pessoa tem bons canais ela consegue se virar porque se pensar em venda de disco já é utopia porque já não se vende tanto disco como antigamente. Esse mercado meio que tá extinto. Esse processo mudou muito. É estranho, a gente que viveu a época do vinil, do CD, é muito estranho a gente pegar uma outra geração, um outro contexto de música. Mas os tempos mudaram e as coisas acabaram indo pra esse lado. Eu acho que as gravadoras vão virar coisas meio que virtuais. O presente já é virtual, o futuro vai ser mais ainda porque tudo vai correr via Internet.
