Num passado recente, a sociedade brasileira apoiou práticas racistas condenáveis. O “eugenismo” ou “higienismo social” se tornou um pensamento poderoso ao longo das décadas de 20 e 30. O Brasil foi o primeiro país sul-americano a ter um movimento eugenista organizado e a teoria da superioridade racial foi amplamente difundida e inclusive prevista pela suprema Constituição Federal. É esta realidade que o projeto de documentário “Menino 23” de Belisário Franca desvendará com base na tese do historiador Sidney Aguilar Filho/ Unicamp.
O que a tese e o documentário revelam é o que quase ninguém sabe: as experiências eugenistas fizeram vítimas. Trabalho forçado, cárcere privado, infâncias roubadas. Numa fazenda em Campina do Monte Alegre, no interior de São Paulo, 50 órfãos entre 9 e 12 anos viveram num regime de semi-escravidão. Na propriedade do fazendeiro Otávio Rocha Miranda, simpatizante declarado do Integralismo, esses órfãos acordavam às 5 da manhã para tomar banho em uma piscina gelada e, às 6h, já estavam na fila para receber a enxada e seguir para o campo. Eles não eram remunerados, não recebiam educação e eram vigiados por homens armados e cães de guarda.
As construções da fazenda foram erguidas com tijolos marcados pela suástica, comprovando a identificação e simpatia dos proprietários com o movimento nazista alemão. Mas a constatação mais reveladora sobre a maneira como os órfãos foram tratados durante os anos de isolamento da sociedade é a de que eles foram tolhidos do direito de usarem seus próprios nomes, sua identidade enquanto cidadãos brasileiros. Ele eram identificados por números.
Um destes meninos sobreviveu para contar a história. Aloysio Silva, hoje com 87 anos, era o “Menino 23”! O documentário “Menino 23” abre as janelas de um pensamento obscuro e pouco explorado da História do Brasil.
A produtora Giros e a distribuidora Elo Company são as responsáveis pela viabilização do projeto. Enquanto o diretor da produção, Belisário estava no Festival “Sunny Side of the Doc“ – em La Rochelle, na França – um dos maiores eventos do gênero no mundo com foco na prospecção de possível co-produção internacional, Sabrina Nudeliman, diretora da distribuidora ELO, estava em Banff, no Canadá, e em Los Angeles e firmou parcerias importantes para o projeto que devem garantir sua presença em festivais internacionais e pré vendas para canais como Arte e A&E.
A Elo Company, distribuidora nacional, se interessou pelo projeto desde a sua apresentação no pitching realizado pela empresa em Setembro do ano passado. “Ao assistir Belisário desenrolando um pequeno pacote que trazia e visualizar claramente um tijolo com uma suástica, tive um choque! Após a sua explanação, tive certeza de que se tratava de um projeto especial e de grande potencial devido ao apelo internacional do tema.
Me lembrei de filmes com enorme distribuição internacional que tratam do assunto eugenia e nazismo, como “Homo sapiens 1900” (lançado em 2000), mas o que chamava a atenção era que não estávamos falando da Europa e sim do aclamado paraíso das minorias – o Brasil!” – diz Sabrina Nudeliman, co-fundadora e diretora da distribuidora.
O projeto encontra-se em fase de pré produção e tem lançamento esperado para 2014.
