A fotógrafa cearense Marjorie Sonnenschein radicada em São Paulo, volta a Fortaleza para lançar a exposição “Trajetória”, em comemoração aos seus 40 anos de carreira. A abertura acontece neste sábado, 14, a partir das 10h, no Sobrado Dr. José Lourenço. O projeto é uma realização do Centro de Pesquisa e Difusão da Arte Imaginário.
A artista iniciou-se no desenho, tendo estudado na Associação Paulista de Artes. Passou pela pintura, quando trabalhou com nomes como Gershon Knispel, Lise Forell e Harry Elsas. Descobriu simultaneamente a fotografia e o cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, para se fixar definitivamente na arte fotográfica. Com essa formação completa, o olhar apurado e amplo ao mesmo tempo, possibilita que a arte de Marjorie dialogue facilmente com todas as linguagens possíveis.
“Suas composições vão da sutil exploração das escalas de cinza até a imersão completa na cor, estabelecendo ou eliminado as fronteiras entre o figurativo e o abstrato. A partir das coisas, dos lugares e das pessoas realiza uma meticulosa construção da beleza, com absoluta precisão nas linhas, nos enquadramentos, nas tonalidades e na captura da imanência de tudo aquilo que fixa com suas lentes”, afirma o jornalista Ricardo Peruchi, amigo e admirador da arte de Marjorie.
Conhecida pelos portraits e seu registro único da cena cultural de São Paulo nos anos 70, onde nasceram as séries marcantes como “Os faróis da costa brasileira”, “Minha Janela” e desenvolveu um trabalho pioneiro que denomina “Imagem terapia”, onde o experimento e exploração das possibilidades do digital são as premissas para o resultado final. É de Marjorie Sonnenschein o famoso registro de conciliação entre Elis Regina e Adoniran Barbosa.
E é focada no digital que “Trajetória”, através de quatro séries de fotográficas da artista mostra o resultado de um ensaio entre 2004 a 2012. As séries “Solidão”, “Realidade Universo”, “Homenagem a Ianelli”e “Blow Up” , mostram como esta artista que veio do analógico, transita agora confortavelmente e com ousadia pelas ferramentas da foto digital, especialmente no que diz respeito as nuances da luminosidade e outras particularidades dos campos de cor nas imagens criadas.
A artista contemporânea demonstra claramente o controle sobre sua própria obra, nos sentidos formal e conceitual. Em seu trabalho, Marjorie Sonnenschein, naturalmente propõe cores e formas novas, arduamente trabalhadas, do real fotografado.
Marjorie sem nenhum medo, direciona com muita ênfase o seu olhar fotográfico, junto aos seus “pinceis digitais”, para soluções formais, mais abstratas, trabalhando com a captação de imagens que existem no mundo real, mais com definições geométricas próprias, radicalizando no uso das cores, como assim fizeram os modernistas ao rejeitarem parcialmente ou totalmente a cor local dos objetos em suas telas.
Na série “Solidão”, a artista dialoga, através da janela de seu apartamento, com a vizinhança interminável de prédios. Em sua jornada, Marjorie utiliza de todas as possíveis luzes de uma São Paulo que nunca se apagam totalmente. E que parece estarem sós. As paisagens nesta série se mesclam ora em definições mais criveis, as quais o olho está acostumado a ver, ora em borrões arquitetônicos bruscamente cortados, aproximados da lente, como se a artista assim quisesse aproximar o seu EU solitário do apartamento ao EU solitário de toda a vista exterior que alcança da cidade que lhe cerca.
Em “Realidade e Universo” (2004/2012), Marjorie faz um recorde da paisagem da janela de sua cozinha, que é um muro e o céu. Depois vai compondo e harmonizando esses dois elementos em diferentes enquadramentos, tratando a cor em tons rebaixados, e iluminando como se quisesse pintar em degradê e criando uma relação de tempo e movimento na imagem.
“Homenagem a Ianeli” (2007/2008), retrata os céus de São Paulo da mesma vista de onde criou a série “Solidão”, acima descrita, imagens captadas da sala de seu apartamento, que também é o seu estúdio, no bairro de Bela Vista, de onde se vê as linhas do pico de Jaraguá. Arcangelo Ianelli foi um artista brasileiro importante , que integrou o grupo Guanabara nos anos de 1950 e que se tornou um expoente representante do abstracionismo formal no Brasil, desenvolvendo uma linguagem que se estruturava por linhas que definiam os campos de cores de sua pintura, captando cores de um espaço real. Nesta Série em homenagem ao Ianelli, Marjorie parece querer descontrair de vez os seus “pinceis digitais”, criando céus vermelhos, arroxeados e azuis. De imagens reais, , Marjorie agora traça linhas e também define seus próprios campos de cor, na homenagem que faz a este grande artista brasileiro.
A série “Blow Up” não são simples quadrados coloridos e estáticos dados num espaço. O trabalho é fruto de um tratamento de fotografias reais, numa aproximação pertinente ao olhar, num esquadrinhar de imagens. Numa potência mais avançada do que o olho humano consegue ver naturalmente, surgem os pixels, e a artista já tomada pelo encanto das formas e das cores do lirismo abstrato que já se insinuava ou definitivamente aparecia nas imagens das séries anteriores, resolve maximizá-los (os pixels), e, de repente se vê mergulhada no mundo da abstração geométrica com infinitas possibilidades de combinações de cores, cortes e composições. Não obstante, essa abstração é resultado de um trabalho digital sobre imagens captadas do mundo real. Seja a lua, um portait, uma estrela ou uma multidão em dia de jogo no estádio do Pacaembu.
Essas séries de ensaios fotográficos reunem em brevíssimo recorte, 30 imagens que são complementadas por parte dos desenhos de seu acervo particular, quando a artista brincava , expondo no papel os delírios de sua alma.
Serviço
Abertura da Exposição “Trajetória”, de Marjorie Sonnenschein
Data: 14 de dezembro, às 10h
Local: Sobrado Dr. José Lourenço (R. Maj. Facundo, 154 – Centro, Fortaleza)
