Paulista com passagem por terras potiguares e coração conquistado pela noiva cearense. Entre as reflexões e questionamentos da Filosofia, curso que está concluindo na Universidade Federal do Ceará (UFC), Edilson Belagier nutre paixão por uma modalidade de jogos caracterizada pela interpretação de personagens fictícios, criando uma narrativa colaborativa ancorada na fantasia. Edilson, ou Ideos, é um jogador-narrador de RPG (na sigla em inglês, role-playing games, que em tradução livre significa jogo de interpretação de papéis). Há seis meses colabora com o grupo Vila do RPG, de Fortaleza, que existe desde 2010 e nos dias 6 e 14 de dezembro realiza o evento FoRPG no espaço da XI Bienal Internacional do Livro do Ceará.
A trajetória pelas mesas de RPG já tem 17 anos. O interesse pelos diversos boardgames e cardgames (jogos de tabuleiro e de cartas de RPG) surgiu com o folhear de uma revista passo a passo que Edilson lia em busca de informações sobre um jogo de video game em japonês. No meio das instruções, um anúncio do jogo “Vampiro, a Máscara”. Foi um casamento perfeito, afinal, a temática vampiresca e de horror sempre chamou a atenção de Edilson. A partir daí, ele mergulhou no mundo dos RPGs.
Segundo Leonardo Mota e Helton Moreira, organizadores do FoRPG, as temáticas dos jogos que costumam fazer mais sucesso são três: fantasia medieval, que remete à origem do RPG com o jogo Dungeons & Dragons; o conflito entre vampiros e lobisomens, com jogos de tom mais gótico e punk; ficção científica; e zumbis em cenários pós-apocalípticos.
O jogo – ou campanha, usando a nomenclatura do RPG – mais demorado que Edilson participou durou dois anos. E só não continuou por mais tempo por culpa de um amigo que ele intitula “amigo de estimação” e possui um apelido peculiar: Porco. Nesse jogo, Porco – ou José Batista, segundo o nome de batismo – chamou o personagem mais poderoso da campanha de “verme de 800 anos” e isso destruiu todo o esforço construído. “O Porco é o cara que faz as coisas mais ‘sem noção’ que eu já vi”, relata Edilson aos risos enquanto passa a mão pelos cabelos ralos e encaracolados sob a boina cinza.
O tempo de uma campanha é variável, pois dentro dela acontecem quantas sessões de jogo os participantes quiserem e tiverem disposição para jogar. As sessões podem levar horas, dias, e as campanhas diversos anos. “Teve um cara que eu conheci que estava em uma campanha há seis anos. Seis anos, cara!”, exclama Edilson.
A paixão pela temática de vampiros é refletida no personagem preferido interpretado por Edilson: um frade vampiro da Idade Média que, em determinado momento do jogo, se encontra com uma matilha de lobisomens. (No universo de jogos de RPG e da literatura fantástica, vampiros e lobisomens são inimigos seculares)
No meio dos jogos, tabuleiros, cartas e outros itens de RPG; com mesas lotadas e participação massiva de várias pessoas, a Vila do RPG e esse universo de colaboração e criatividade são locais para novos encontros. Na mesa onde Edilson está narrando um jogo estão um garoto encantado com os itens, um médico e um programador participando do jogo. “O lado bom do RPG é essa possibilidade de expandir novos horizontes. Conhecer e conversar com diversas pessoas”, revela. Para Edilson, a influência positiva do RPG na vida dele foi a perda da timidez. Além disso, foi no universo da tradução de livros sobre os jogos que Edilson conheceu a noiva, Sarah Ramos, com quem está “há quatro anos exatos”. O amor também faz parte do universo de ficção do RPG.
