A temática de Belle, no entanto, está mais associada a outros espetáculos da companhia: Nó, de 2005, e Cruel, de 2008, discorrem, ambos e de diferentes maneiras, sobre o que há de mais atávico nas pulsões humanas: o erotismo.
Com uma diferença fundamental: Belle traz à tona, também e principalmente, o outro lado desta mesma moeda. Coloca em evidência o embate entre carne e espírito, amor e desejo, razão e instinto, real e imaginário – conflitos íntimos que assombram e atormentam todo e qualquer ser humano civilizado. E, para Deborah, o que faz da protagonista da obra de Kessel uma personagem singular e fascinante é o fato de ela atender ao chamado implacável do instinto, ao mesmo tempo em que não abre mão do casamento e do charme discreto do dia-a-dia burguês, que preza com sinceridade, revelando uma capacidade incomum de dividir-se, com suprema diligência, entre as duas servidões.
– O livro de Kessel foi meu timoneiro, define Deborah Colker. Mas o meu desafio era traduzir em
movimentos a dicotomia brutal e tão profundamente humana que move a história desta mulher.
E, pela própria natureza da linguagem coreográfica, meu espetáculo traduz uma leitura muito
mais poética do que propriamente narrativa da trama. A grande assinatura da minha adaptação
de Belle de Jour foi materializar no palco o duplo de Séverine. Tanto no romance original quanto
no filme de Buñuel, Séverine e Belle são a mesma pessoa. E, como na dança tudo é transmitido
através do corpo, para mim, foi necessário encarnar este duplo em duas bailarinas que fossem o
oposto perfeito uma da outra. Uma é alta, controlada, fria, sistemática. A outra é baixa,
vulcânica, intensa, animal.
A esta opção soma-se outra que revive um dos ícones do balé clássico: as sapatilhas de ponta,
usadas pelas bailarinas no início do espetáculo.
– É um recurso do qual eu me aproprio com muito prazer. Quando Isadora Duncan tirou as
sapatilhas no início do século XX foi uma grande ruptura. Mas a roda continua girando. Pina
Bausch voltou às pontas e ao balé narrativo. A atitude contemporânea, para mim, está na
saudável desobediência a fórmulas prontas, defende Deborah.
Sobre uma trilha sonora que vai do gênio de Miles Davis a Lou Reed, passando pela música
eletrônica, Belle se estrutura em dois movimentos. No primeiro, a ação se concentra na casa de
Séverine e culmina em sua descoberta clandestina do randevu. No segundo, integralmente
passado no habitat de Belle, seu duplo, o elenco feminino troca as sapatilhas por sapatos de
salto alto, mas há poucas mudanças de cenário. Uma opção que reforça a leitura pessoal e
intransferível do romance pela coreógrafa.
– Belle, o espetáculo que construí, deixa no ar, em aberto, uma questão, e delega ao espectador
a escolha: afinal, esta é uma história que realmente se realiza ou que se passa apenas dentro da
cabeça de Séverine?, provoca.
Serviço
Data: 2 e 3 de abril
Local: Teatro RioMar
Rua Lauro Nogueira, 1500 loja 3001 – L3
Ingressos à venda: Bilheteria do teatro
Segunda-feira – Fechada
De Terça à Sábado de 12h às 21h
Domingos e Feriados* – 14h às 20h
Domingos e Feriados que houver evento, a bilheteria abre de 12h até o início do evento.
Valores:
R$ 80,00 (inteira) e R$ 40,00 (meia)
Obs: Portadores dos cartões PETROBRÁS ( Crédito, Premmia, crachás de empregados.) deverão ter, obrigatoriamente, 50% de desconto na compra de até dois ingressos cada, por apresentação (desconto não acumulativo).
