Navegando pelos mares da vida, Puppi aportou no Brasil. O violoncelista italiano radicado no Rio de Janeiro é um sonhador nato. Fantasiou que pudesse viver de música, imaginou como seria gravar com Milton Nascimento e tudo virou realidade. É no segundo disco de sua carreira, “Marinheiro de Terra Firme”, que ele ousa e prova que é possível unir Beethoven com drum n’ bass ou falar sobre imigração em um contexto de música pop instrumental. O álbum é um lançamento Sagitta Records e já se encontra disponível nas principais plataformas de streaming. (Foto: BidiBujnowski)
Da capa ao som, tudo em “Marinheiro de Terra Firme” evoca a força de quem abandona a sua terra natal em busca de uma vida diferente em outro lugar. O conceito da capa surgiu em parceria com o artista plástico italiano Alain Joly. A ideia é que as baleias são os maiores marinheiros do planeta, navegando longas distâncias, como se vivessem a dar voltas ao mundo. Na ilustração, o universo cabe dentro do navegante, como se toda a experiência da viagem tivesse se construído como um planeta dentro deste marinheiro incansável.
“A baleia é como um vaso que vai se preenche do que encontra, até transformar-se no mundo. O viajante, o marinheiro da terra firme, é um vaso que se completa com os encontros que ele vive durante a sua viagem. Imagina a capa ao contrário: a baleia branca no meio do universo, essa é a situação pré-viagem. No fim da viagem, é o que vemos na capa, após todo o percurso do viajante”, explica Puppi.
Com 13 faixas, o álbum é um convite a navegar entre sons e experimentações – como nas duas músicas lançadas, “Em Direção Obstinada e Contrária” e “Ciranda dos Náufragos”, que ganhou clipe. A primeira faixa, “Prólogo”, traz a citação em espanhol “Castigo para los que no practican su pureza con ferocidad”. A frase é do autor argentino Mario Trejo, e funciona como o mote do disco. A ideia é que para seguir nesta viagem, é preciso amor e resiliência.
E cada música nos prepara para um dos pontos altos do disco: a canção “Capitão do Mar”, com a forte voz de Milton Nascimento. A faixa nasceu de improvisações que Puppi fazia com um amigo violonista, quando ainda morava na Itália, mas nunca foi finalizada. Foi só em 2017 que o artista concluiu a melodia, com Mario Wamser. Durante o processo de gravação, Puppi notou que ela ficaria perfeita na voz de Milton e começou a fantasiar com o artista a cantando.
“Tinha certeza que ia ficar linda com a voz dele. Tomei coragem e escrevi para o Augusto Kesrouani e ele me convidou para mostrar a música ao Milton. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Mostrei a canção pra ele, e para mim isso já era um presente muito grande, estar perto dele mostrando meu trabalho. Ele aceitou gravá-la e a felicidade de ouvir a voz maravilhosa do Milton passear pelas melodias foi imensa! Capitão do Mar é para o marinheiro Milton, o viajante que ensina em acreditar nos sonhos, que inspira a coragem, a força e a beleza das travessias”, relembra Puppi.
Como se fôssemos embalados pelo mar, o disco segue com faixas que evocam diversos sentimentos. Sempre na busca de inovar, é na faixa 12, com “Clareou”, que Puppi mostra o encontro do violoncelo com o atabaque. A canção é um ponto de Umbanda, na voz de Ivo de Carvalho, um dos maiores compositores umbandistas, atuante há mais de quatro décadas.
“Ivo é um compositor maravilhoso, um ser humano de luz e uma guia espiritual que ilumina o caminho de muitas pessoas. A primeira vez que ouvi esta música me emocionei muito, ela me tocou num lugar profundo. ‘Clareou’ tem uma energia gigantesca dentro dela, dentro da sua letra, na voz do Ivo, nos atabaques. Ela finaliza este álbum conceitualmente, clareia a vida, a mente do Marinheiro. É a estrela guia, a direção, a mãe, o amor, a força, a coragem. Ela é para todos os Orixás”, explica Puppi.
Dono de uma técnica refinada e uma vontade incontrolável de se reinventar, Federico Puppi reúne influências que vão do clássico ao jazz passando pelo punk rock. No Rio desde 2013, seu trabalho mais reconhecido é o disco “Guelã”, de Maria Gadú, que co-produziu com a artista. Tido pela crítica especializada como um marco na carreira de Gadú, o álbum foi indicado ao Grammy Latino. Em 2015, ele lançou “Canto da Madeira”, seu elogiado disco de estreia.
O segundo disco de Puppi, “Marinheiro de Terra Firme”, foi gravado entre fevereiro e setembro de 2017, no estúdio Ouvido em Pé, por Federico Puppi, Mário Wamser e Mari Blue (Rio de Janeiro) – exceto percussões de “Ciranda dos Náufragos”, gravadas no estúdio F&M, por Felipe Roseno (São Paulo). O disco foi mixado por Diogo Guedes, no estúdio Toca do Mendigo (Rio) e masterizado por Andrea Bernie De Bernardi, no estúdio Eleven Mastering (Itália).
Os músicos que fizeram parte do disco são: Lancaster Pinto (baixo), Gastão Villeroy (baixo), Cesinha (bateria), Miguel Couto (bateria), Schwab (didjireedoo e voz), Mario Wamser (wurlitzer, violão de aço e voz), Marco Lobo (percussão), Felipe Roseno (percussão), Mari Blue (voz) e Suzana Nascimento (voz).
Para ouvir “Marinheiro de Terra Firme”: http://bit.ly/PuppiMDTF
