Quase dez anos após o lançamento do álbum Ciranda de Ritmos, a cirandeira pernambucana Lia de Itamaracá vai lançar, no próximo mês, o disco Ciranda Sem Fim. O trabalho carrega o selo do edital Natura Musical através da Lei Federal de Incentivo à Cultura e foi produzido pelo DJ Dolores e pela produtora cultural Ana Garcia. Com 11 faixas, o álbum acaba de chegar às plataformas de streaming.
No material, os admiradores da voz marcante da cirandeira mais famosa do Brasil, vão conhecer uma artista que vai além de uma brincante de ciranda. A proposta do DJ Dolores não é desconfigurar a referência que Lia carrega enquanto referência da Ciranda, mas oferecer uma fusão entre novos e antigos sons. “Lia é cantora do que ela quiser. A voz imponente, marcante e vibrante também pode apresentar outros ritmos. A partir disso estamos apresentando essa repaginada, explica Dolores, que assina a direção musical do novo trabalho.
O nome do álbum também batiza uma das músicas integrantes do disco. Ciranda Sem Fim Para Lia foi um presente dado à artista pelo músico carioca Lúcio Sanfilippo durante um encontro entre os dois no Rio de Janeiro, em 1999. A faixa recorda o trabalho como merendeira, ofício desempenhado pela cantora durante 30 anos em uma escola estadual da Ilha de Itamaracá.
Lia acompanhou a escolha do repertório, e participou da montagem das faixas desde a composição da ideia. “Estou encantada com o resultado do trabalho, inclusive com as músicas românticas que sempre gostei de ouvir e agora pude gravar”, conta Lia.
Entre as letras mais intimistas escolhidas por Lia está O Relógio. A canção original El Reloj fez sucesso foi composta nos anos 50 pelo cantor mexicano Roberto Cantoral. No Brasil, a música foi marcada pela voz de Altemar Dutra. O bolero está entre os 10 mais famosos e executados no mundo. Já a faixa Apenas um trago (Bom dia, meu amor) foi sucesso nos anos 70, composta pelo mineiro e cantor de brega José Ribeiro.
Ao contrário dos discos anteriores: Rainha da Ciranda (1977), Eu Sou Lia (2000) e Ciranda de Ritmos (2010), a poesia é obra presente neste álbum atual, com a colaboração de textos de outras mulheres, como em Falta de Silêncio, de Alessandra Leão. A poesia, agora cantada por Lia, é um mantra à Iemanjá. Peixe Mulher, de Ava Rocha e Iara Renó, é uma referência à relação de Lia com o mar da Ilha de Itamaracá, cidade da cirandeira.
O cantor e compositor paraibano Chico César também participa do novo álbum, na autoria da música Desde Menina, outro presente oferecido à Lia. No material, Lia teve um encontro com outros nomes da música de Pernambuco, a exemplo do percussionista Lucas dos Prazeres e do baixista Yuri Queiroga. A cantora Alessandra Leão contribui para o trabalho na composição da faixa Falta de Silêncio.
A previsão é que o trabalho, que chegará em formato de CD e LP, esteja nas prateleiras também no mês de novembro. Para comemorar o nascimento do novo álbum, Lia fará uma audição do novo trabalho com uma roda de ciranda aberta ao público, no dia 8 de novembro, no Pátio de São Pedro, no Recife. No dia 16 do mesmo mês, Lia abre a turnê Ciranda Sem Fim com uma apresentação especial na 16ª edição do Festival Coquetel Molotov, na capital pernambucana.
O projeto foi selecionado pelo Natura Musical por meio do edital 2018 com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura da Secretaria de Cultura e da Secretaria da Fazenda da Bahia. “Coletivos como as Ganhadeiras de Itapuã ampliam a voz de movimentos que buscam maior representatividade dentro e fora do mercado musical”, afirma Fernanda Paiva, gerente de Marketing Institucional da Natura. “De uma forma geral, os coletivos promovem impacto cultural, social e econômico que multiplica o alcance de um patrocínio. A gente investe no coletivo e toda uma rede de pessoas conectada a ele também são impactadas de forma positiva”, completa.
Lia de Itamaracá é Maria Madalena Correia do Nascimento nasceu em 12 de janeiro de 1944. É a única de 18 filhos a se dedicar a música. Segundo Lia é um “dom de Deus e uma graça de Iemanjá”. A trajetória começou na década de 70 a partir dos versos “essa ciranda quem me deu foi Lia que mora na Ilha de Itamaracá. Em 1977 gravou o LP Rainha da Ciranda; em 2000 foi a vez do disco Eu Sou Lia; em 2010 nasceu o Ciranda de Ritmos, um encontro da ciranda com o coco de roda e o maracatu. A cirandeira mais famosa do Brasil recebeu, em 2005, se tornou Patrimônio Vivo da Cultura de Pernambuco. Chamada de Diva da Música Negra pelo The New York Times, Lia levou sua ciranda para países da América Latina e Europa. Em julho deste ano, teve sua vida narrada no livro-reportagem Lia de Itamaracá, do jornalista pernambucano Marcelo Henrique Andrade. Em agosto, a cirandeira recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco. Ainda em 2019, quando completou 75 anos, foi homenageada no bloco O Galo da Madrugada, no carnaval do Recife.
